por
Pablo Fernandez*
Capítulo 1: 1981
- 1985
PARTE 1 - O "Animado" Começo
A história do Faith No More se confunde
com a história da amizade de duas pessoas
em especial: William David Gould Junior, o Billy
Gould e Roswell Cristopher Bottum, o Roddy Bottum.
Os dois amigos nasceram no mesmo ano, 1963 e viviam
na mesma vizinhança em Hancock Park, um
bairro de pessoas de alto poder aquisitivo em
Hollywood, na Califórnia. Vizinhos de celebridades,
tanto os pais de Billy Gould quanto os de Roddy
eram advogados de sucesso. Os dois eram garotos
nascidos em berço de ouro.
Sendo
vizinhos, era natural que Bill e Roddy se tornassem
grandes amigos. Costumavam sair para brincar juntos
e estudavam na mesma escola. Logo, assim que fosse
despertada a veia musical nos dois, seria óbvio
que os dois formariam uma banda em um futuro próximo.
Desde pequeno o garoto Roddy, obrigado pela mãe,
tomava lições de piano clássico.
Já o pequeno William começou a se
interessar por música, em especial pelo
baixo, com 13 anos.
Era o ano de 1977 e a cena punk começava
a estourar no mundo. Sex Pistols, The Clash: nascia
o movimento punk na Inglaterra, onde o som não
era tão importante, mas ter atitude era
o que contava. Não demorou muito para os
dois garotos se interessarem por esse estilo musical.
Com 15 anos, os dois garotos começaram
a freqüentar shows de bandas de punk locais
em LA.. Segundo relatos de Roddy, foi nessa época
ele roubou um LP, que veio a ser seu primeiro
álbum de punk rock, em uma loja de discos
da cena underground. Este disco era de uma banda
chamada SPARKS - mal saberia ele que mais tarde
o FNM gravaria seu último single com eles.
Com o crescente interesse de Bill em música
e no punk rock, logo ele formou uma banda: o The
Animated. A banda consistia nos seguintes membros:
Billy, um amigo q foi escoteiro junto com ele,
e um cara com jeito de maluco, 3 anos mais velho,
que seria o tecladista da banda: Chuck Mosely.
Chuck era mais velho que os outros dois membros
do The Animated, e mais experimentado também.
Era o cara do Underground, basicamente foi ele
quem apresentou a cena e a atitude punk que veio
a fascinar Billy. Era o cara que já tinha
feito várias maluquices (porres, usado
drogas, freqüentado shows de bandas punk),
enquanto os outros dois eram apenas filhinhos
de papai que mal haviam saído de casa.
Mas mesmo assim, Chuck acabou recebendo Billy
muito bem, levando-o para conhecer a cena underground,
apresentando-o várias bandas. Roddy também
se interessava bastante pela cena Punk e como
estava sempre andando com seu amigo Bill Gould
acabou também embarcando nessa.
O The Animated continuou na ativa durante 3 anos,
até meados de 1980. Mas apenas Billy levava
a banda a sério, chegando até a
fazer uma viagem para a Inglaterra para tentar
vender gravações da demo do The
Animated com o intuito de conseguir uma gravadora.
Enquanto Bill se empenhava na banda, seu grande
amigo Roddy Bottum estava mais interessado em
qual faculdade cursaria após concluir o
High School, pois na época ele não
tinha interesse em tocar em banda alguma, apenas
saía aos bares underground com Bill e Chuck
Mosely. Já Chuck... bem, Chuck nunca foi
interessado em nada. Ele queria mesmo era beber,
curtir e ir a shows (pra encher a cara). Com isso,
Bill acabou desistindo da banda e tanto ele quanto
Roddy se mudaram para San Francisco, para cursar
a faculdade. Por lá, ambos continuaram
com a grande amizade, se tornando rommies (colegas
de quarto).
PARTE 2 - San Francisco, Bay Area
Chegando na Bay Area, em 1981, tanto Roddy quanto
Bill se viram bastante animados com aquele "boom"
da cena que estava acontecendo por lá.
Em tempo: Bill foi pra lá com este objetivo,
de ter sua própria banda. Estudar era apenas
desculpa! Por isso, Roddy e Billy combinaram que
continuariam freqüentando a faculdade apenas
por fazer, levando o curso com a barriga, pegando
apenas as matérias mais fáceis,
pois ambos ainda não sabiam o que queriam
cursar.
Então Bill foi até uma loja de
discos em Berkeley para procurar um baterista.
Foi lá que viu um anuncio de uma banda,
que também estava procurando por um batera
e um baixista. Pois ele foi ensaiar com eles (segundo
Bill, caras muito estranhos!) e nesse mesmo ensaio
lá estava Mike Bordin. Assim, Bill conheceu
Mike Bordin.
Mike Bordin, o Puffy. Ele sempre foi um cara
bastante introspectivo, devido a vários
problemas com a sua família e era na música
que ele encontrava a válvula de escape.
Desde o começo da sua adolescência,
Bordin esteve sempre escutando rock. Bandas como
Black Sabbath, Creedence Clearwater Revival estavam
entre as suas prediletas.
Bordin começou a tocar bateria meio que
por acaso. Quando ele tinha 14 anos, ele e um
colega de colégio chamado Cliff estavam
conversando e escutando música (Cliff era
muito fanático por KISS) até que,
empolgados pelo som, Cliff decidiu: vou ser baixista!
Puffy então na mesma hora bradou: pois
então tocarei bateria! Em tempo: Cliff
nada mais era que Cliff Burton, que mais tarde
integrou o Metallica até o trágico
e fatal acidente que o vitimou em 1986.
Então ambos continuariam tocando juntos
até Cliff entrar para uma banda chamada
EZ Street, que depois de ter vários bateristas
horrorosos, estava procurando por um. Cliff não
pensou duas vezes e acabou levando seu amigo Bordin
para um teste. O guitarrista dessa banda era Jim
Martin. Mas Bordin não permaneceu por muito
tempo nessa banda, pois ele odiava Jim Martin.
Ambos não suportavam um ao outro: Bordin
odiava o jeito de ser de Martin e Jim odiava o
jeito que Bordin falava as coisas na cara. Um
saiu prometendo que nunca mais sequer se olhariam
na cara. E foi nessa época de EZ Street
que veio o apelido Puffy, de Bordin. Foi dado
por Jim Martin: "Seria de Puffhead, porque
ele tem esse cabelão afro gigantesco que
parece um Puffy, faz Puffy quando você o
aperta". Mais tarde, Cliff saiu da banda
para tocar em outra, a Trauma.
Nessa época, Puffy Bordin passou por diversos
problemas (depressivos). Ele começou a
tocar em bandas estilo New Wave/ Rock Progressivo,
coisa que não o deixava feliz. Com o final
de uma dessas bandas, um dos integrantes lhe falou
que tinha um cara que, assim como Puffy, amava
Killing Joke (banda que Puffy estava escutando
ininterruptamente nesse estágio) e que
ele estava precisando de um baterista para a banda
dele. Mas Puffy foi avisado no mesmo momento que
este mesmo cara era uma pessoa de difícil
convivência, mas mesmo assim Puffy resolveu
procura-lo. Este cara era o "The Man"
e na banda do "The Man" estava Billy
Gould.

PARTE 3 - Faith No Man, but The Man
is essentially no more, so Faith No More!
Estamos em 1982, e finalmente Billy Gould consegue
estar em uma banda. A banda em questão
era o Faith No Man, que no seu início era
chamada de Sharp Young Men. Mas, segundo Gould,
eles acabaram trocando porque queriam um nome
mais obscuro, mais instigante. A banda tinha Billy
Gould, Puffy Bordin, Wade Worthington e Mike "The
Man" Morris, que era o guitarrista e líder
da banda. Mais tarde, Worthington saiu da banda,
fazendo com que Bill chamasse seu colega de quarto
Roddy Bottum para o seu lugar, pois Bill sabia
que Roddy havia tomado lições de
piano clássico durante praticamente toda
sua infância e adolescência.
Com entrada de Roddy na banda, logo Bill e Puffy
perceberam q ela não teria longa vida.
"The Man" Morris era um ditador: as
coisas deveriam ser do jeito dele, eles teriam
que se vestir como ele, entre outras coisas. Era
ele quem fazia as coisas e tudo mais. Os 3 começaram
a se encher da situação, mas era
difícil para eles mandar o ditador "The
Man" embora. Então os 3 decidiram
sair da banda!
Mas o Faith No Man chegou a fazer a gravação
de uma demo com duas músicas, batizada
de Song Of Liberty, pela Ministry of Propaganda
Records. Bill chamou um produtor que ele conheceu
no passado chamado Matt Wallace (que viria a gravar
todos os álbuns do Faith No More até
o Angel Dust).
Foi também nessa época que Puffy
começou a estudar batidas afros com um
professor africano na universidade de Berkeley,
algo que o influenciou, e muito, no seu jeito
de tocar.
Agora os três estavam sozinhos e podiam
tomar o rumo musical que quisessem, mas eles precisavam
de um nome. Foi então que um amigo do Bill
chamado Will Carpmill veio com a sugestão:
"You guys were in Faith No Man, but The Man
is essentially no more, so Faith No More!".
Então nascia o Faith No More! Bill, Roddy
e Puffy.
PARTE 4 - Courtney Love no FNM?
Já em 1983, depois de saírem do
Faith No Man e montarem o Faith No More, Bill,
Roddy e Puffy começaram a por em prática
todas as idéias, influencias e sons que
estavam fazendo suas cabeças. Isto, no
entanto, resultou num bizarro estilo de musica,
que combinava milhares de sons diferentes, algo
que veio a caracterizar o FNM mais tarde. Mas
mesmo assim, a banda continuava sem um guitarrista
e um vocalista fixo. Mas isso não era visto
como um problema. Os três decidiram que
continuariam sem ninguém fixo, e a cada
show que era feito eles convidavam duas pessoas
diferentes para assumir a guitarra e os vocais.
E assim foi o FNM durante alguns meses: Jake,
Joe Pye, Paula Fraser são alguns dos nomes
que fizeram parte dessa idéia maluca dos
caras. E mais: nos shows, além da música
bizarríssima, eles tocavam vestidos de
mulher!
Pois foi numa dessas idas e vindas de vocalistas
e guitarristas que, em um dos shows, uma moça
loira de estilo agressivo e maluco foi falar com
Bill, dizendo que tinha muitas idéias para
a banda e que ela seria o que faltava pro FNM.
Essa moça era Courtney Love, que mais tarde
teria uma banda chamada Hole e se casaria com
o finado Kurt Cobain, líder do Nirvana.
Ela tocou durante três shows no FNM, mas
não deu muito certo. Segundo Bill, ela
era muito autoritária, queria ser a líder
do grupo, da mesma maneira que "The Man".
Além disso, ela tinha vários problemas
pessoais, alem de não cantar muito bem.
Como as coisas no FNM sempre foram muito democráticas,
ela acabou sendo mandada embora. Mas daí
nasceu uma amizade entre ela e Roddy que perdura
até hoje, chegando os dois, na época
dela no FNM, até a saírem juntos
algumas vezes.
E cada vez mais Bill via a necessidade de ter
um vocalista e um guitarrista fixos na banda.
O FNM acabou voltando para Los Angeles, no verão
de 1983, sem pessoas nestas funções.
Chegando lá, Bill teve a idéia de
convidar seu antigo amigo Chuck para entrar na
banda. Chuck, como foi comentado na primeira parte
desta história, tocou teclados na primeira
banda de Bill. Mas, peraí! Bill quer ele
como vocalista? Sim, isso mesmo! Segundo Bill,
ele queria um cara que não estivesse nem
ai, ele não queria um Steven Tyler da vida
na banda e sim, um cara que mandasse tudo pra
merda, que tivesse atitude. Isso era algo que
certamente Chuck tinha como virtude (e também
como defeito).
Chuck, de fato, nunca tinha cantado em lugar
algum, mas Bill parecia não estar muito
interessado nesse fato. Então Chuck acabou
aceitando entrar para o FNM. Na mesma época
Chuck estava em uma banda, que era bastante conhecida
no underground de L.A chamada Haircuts That Kill.
Com Chuck nos vocais faltava recrutar um guitarrista.
Chega o ano de 1984 e o FNM resolve voltar para
a Bay Area, San Francisco e lá eles escolhem
um guitarrista: Mark Bowen, que veio a ser o primeiro
guitarrista fixo do FNM. Lá eles fizeram
3 ou 4 shows, e Mark Bowen não funcionou
muito bem na banda, sendo mandado embora. Mais
uma vez, o FNM estava sem guitarrista. E Chuck,
bem, Chuck como sempre não estava levando
as coisas muito "a sério", tanto
que ele permaneceu morando em L.A, indo para San
Francisco apenas quando haviam shows. Chuck e
o resto da banda "ensaiavam" através
de troca de fitas enviadas por Bill para ele aprender
as musicas. Ensaios, nunca. A situação
da banda não estava fácil.

PARTE 5 - The ChickenFuckers
Pois foi num desses encontros entre amigos que
Puffy e Bill encontraram Cliff Burton, agora já
baixista do Metallica, banda que começava
a acontecer e fazer sucesso na Bay Área.
Cliff, como se sabe, é amigo de longa data
de Puffy e um cara no qual Puffy tinha muito respeito.
Pois foi sabendo da situação que
Cliff acabou fazendo uma indicação
para os dois: seu velho amigo Jim Martin. Naquele
momento, Jim estava sem banda, fazendo vários
bicos pra sobreviver (pintar casas, arrumar relógios
etc..) e Cliff falou que o estilo e a atitude
de Jim era o que estava faltando para o caldeirão
de influencias e personalidades que era o FNM
(Cliff falava que o FNM era um bando de Weirdos
e Jim também, então seria interessante
juntar todos os Weirdos!). Em tempo: Jim e Cliff
eram grandes amigos, e ambos sempre que podiam
se juntavam para fazer Jams na casa de Cliff.
Então Puffy acabou aceitando o conselho
de Cliff e, apesar de odiar Martin por causa daquela
mal sucedida passagem no EZ Street, resolveram
chamar Jim, afinal, já havia se passado
um bom tempo, talvez Jim teria mudado, pensou
Puffy.
O veredito final foi dado após uma Jam,
em um pub em San Francisco. A banda formada para
esta Jam era composta por Jim Martin, Cliff Burton,
Bill Gould e Puffy e foi batizada de The ChickenFuckers.
O show foi bem sucedido e logo após Jim
Martin acabou aceitando entrar para o FNM. Finalmente
a banda estava formada. Chuck Mosely, Jim Martin,
Billy Gould, Roddy Bottum e Puffy Bordin. Assim,
a banda começou a realizar shows com mais
freqüência, naquele mesmo esquema:
chamavam Chuck, ele chegava 5 minutos antes dos
shows, tocava muito bêbado e chapado e voltava
pra L.A. Assim foi durante um bom tempo, pois
Chuck não levava o FNM como uma banda permanente,
diferentemente de Billy. Mas, no final das contas,
Chuck acabou vendo que o FNM era algo que estava
acontecendo. Tanto estava acontecendo que o próximo
passo seria registrar uma demo.
O FNM entrou em estúdio no fim de 1984,
para gravar uma demo com 4 musicas. Este estúdio
era o Sun Studios, em Cotati. Mais uma vez Matt
Wallace foi chamado para produzir a demo Em 3
dias o trabalho foi finalizado. Mas estes 3 dias
foram suficientes para perceber alguns problemas
com Chuck, que por alguma razão, fazia
de tudo para ter algum tipo de problema. Ou ele
estava gripado ou estava mal do estômago.
Não que ele tivesse o problema mas, aparentemente,
Chuck fazia de tudo para ficar doente e ter a
desculpa de não precisar gravar os vocais.
Mas, mesmo assim, a demo saiu em 3 dias. E com
a demo na mão, agora o FNM poderia finalmente
começar a pensar em achar uma gravadora
para lançar seu álbum. Para os padrões
da época, a música do FNM era muito
maluca, diferente e essa tarefa seria muito complicada.
Billy então deixou essa demo gravada com
seu amigo Will Carpmill, que na época trabalhava
na loja de discos Rough Trade. Bill queria que
ele deixasse a demo tocando na loja. Até
que Ruth Schwartz, que trabalhava em uma distribuidora
de discos na época estava querendo uma
gravadora. Ao escutar aquele som diferente e estranho
que estava tocando na loja aonde Will trabalhava,
ela perguntou a ele o que era. Ruth achou o som
interessante e que essa banda poderia ser um começo
para a sua gravadora. Will então contactou
Bill, e o FNM finalmente assinaria com a tão
sonhada gravadora. Para ajudar a banda com a questão
de contratos e outras pendengas legais, o mesmo
Will indicou sua irmã, Olga Gerrard, que
junto com o marido Gerry Gerrard, tinham uma agência
de gerenciamento de carreiras (famosos empresários).
Eles demonstraram interesse em agenciar a banda.
Pronto: o FNM conseguia uma empresária
e uma gravadora, a Mordam Records. A partir dali
estava plantada a semente que mais tarde renderia
o primeiro álbum da banda, We Care A Lot,
por esta nova gravadora, a Mordam Records.
* Pablo
Fernandez é mantenedor do site Bungle
Weird - www.bungleweird.com
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